Filmes Review

Análise: “Die Welle” e a ameaça do fascismo iminente

O filme alemão explora a fundo questões políticas que assombraram o próprio país, no episódio mais cruel da história moderna.

O filme de 2008 começa de forma emblemática. Rainer Wenger (Jürgen Vogel) brada em seu carro os versos de “Rock and Roll High School”, interpretada pela banda alemã El*ke, mas que ficou conhecida e se tornou um clássico punk, ao ser lançada pelos Ramones. “Eu não dou a mínima para história”, é sua linha de abertura.

Wenger, formado em educação física e ciências políticas, é um ideal-anarquista e professor, treinador de polo aquático de uma escola de ensino médio alemã. Simpático, ele é o queridinho dos alunos, mas enfrenta resistência de parte de seus colegas professores. E é justamente esse conflito de personalidades que torna possível os acontecimentos a seguir.

“Die Welle”, ou “A Onda”, é baseado em um livro, homônimo, e em um caso real de um experimento social, conhecido como Terceira Onda, realizado em 1967, nos Estados Unidos, pelo igualmente professor de ensino médio, Ron Jones. O experimento tinha como objetivo demonstrar que, nem mesmo a mais democrática das sociedades, está imune à ameaça iminente do fascismo.

Voltando ao filme, Rainer, em uma semana acadêmica de atividades extracurriculares, gostaria de apresentar aos alunos um minicurso sobre a Anarquia, mas foi atravessado por um de seus desafetos docentes. Dessa forma, restou-lhe apenas o minicurso de Autocracia.

Os alemães, apesar de conhecidamente se envergonharem (com razão) do holocausto e de todas as atrocidades cometidas durante o domínio do Terceiro Reich, têm como escopo social não deixar que tudo aquilo seja esquecido, pelo simples princípio de “aqueles que não conhecem a história, estão fadados a repetí-la”.

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Símbolo d’A Onda feito pelos membros em uma construção da cidade.

De certa forma, essa ideia causa algum nível de conformismo e comodidade social. Um sentimento de que isso jamais voltará a acontecer, como Rainer nota entre seus alunos logo no primeiro dia, quando os pergunta se algo como uma ditadura fascista, semelhante a de Hitler, seria possível de se repetir.

É então que entra em cena o experimento social da Terceira Onda. No terreno fértil da juventude, em busca de motivos para se rebelar, Wainer enxerga a oportunidade perfeita de mostrar, por meio da dinâmica de grupo, que o fascismo está a apenas algumas insatisfações e um líder carismático de distância.

Rainer passa, então, a ensinar aos alunos os pilares básicos de uma sociedade autocrática. Entre eles, disciplina e união. Antes de prosseguir com o experimento, faz com que os discentes elejam um líder, que representará a figura do Estadista. Acabam por escolher o próprio professor. Sendo assim, exige que se refiram a ele como “Sr. Wenger”.

Postura, respeito, obediência e união de iguais são fundamentos para pleno funcionamento de um impiedoso sistema autocrático. O caminho para que isso se estabeleça é insatisfação popular, desemprego, insatisfação política, injustiça social e inflação alta. Essas características, observadas por uma lente macro, podem ser observadas, em menor ou maior escalas, em quase qualquer sociedade democrática.

Ao ordenar que os alunos se direcionem a ele apenas como “Sr. Wenger”, e que se levantem ao dirigem-lhe a palavra, Rainer impõe sua autoridade e projeta sua imagem de líder, a ser respeitado e seguido.

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A fim de se tornarem pares e mais unidos, os estudantes que fazem parte do grupo passam a usar uniformes, votam para a escolha de um nome – A Onda – e escolhem um símbolo e um cumprimento, que os identifiquem e diferenciem dos demais membros da comunidade. Esse cumprimento muito se assemalha à saudação nazista.

Apesar do pouco tempo de duração do curso, logo A Onda se torna maior que as paredes da sala. Faz com que os jovens, e inconsequentes, passem a se impor, também, no ambiente externo ao da escola, se unindo e deixando suas marcas pelas ruas da cidade. Movimentos segregacionistas começam a surgir, dentro e fora do grupo, com membros que se opunham às doutrinações sendo alvos de chacota e exclusão.

Ao longo do filme, podemos perceber como o sentimento de pertencimento, criado culturalmente dentro do grupo, tem uma influência mais forte e acentuada sobre aqueles indivíduos com histórias de vida e bases estruturais de relacionamentos mais frágeis. É possível perceber, dentro deles, a progressão de um sentimento muito semelhante ao do nacionalismo extremo, como se precisassem daquilo para se proteger e para proteger aquilo a que pertencem.

Com o tempo, o próprio Rainer se deixa levar pela vaidade e começa a admirar a popularidade e apreço que vem recebendo de seus alunos, sem perceber o que acontece ao seu redor, pela perspectiva de um observador. Ele está no centro do furacão e A Onda já começava a se tornar uma comunidade organizada, com simpatizantes até mesmo fora do minicurso onde tudo se iniciou.

O embrião de uma sociedade opressora havia sido plantado com sucesso, a partir de um experimento social sem grandes pretensões.

O plano de fundo de um filme adolescente esconde, para alguns, as pretensões de “Die Welle”, com raízes profundas na filosofia, nas questões políticas e de relações humanas. Mesmo em uma sociedade como a alemã, que cedeu palco ao nazi-fascismo, novos grupos para alimentarem aquele mesmo sentimento estão suscetíveis aos surgimento. Que diria uma sociedade de bases estruturais mais fracas e de mais frágil democracia?

Falta de conhecimento histórico, ou simplesmente o sentimento de perda de direitos, seja ele artificial, legítimo ou provocado, podem ser o estopim para o surgimento de uma nova onda fascista para a busca de direitos abstratos e luta por verdades subjetivas.

O fascismo não morreu com a queda das potências do eixo, na Segunda Guerra Mundial, e ainda se esgueira por entre as sociedades, como uma doença que aguarda um momento de baixa imunidade para se alastrar.

SEM SPOILERS: Em seu discurso final, Wenger usa do carisma, da retórica extremista e do populismo para aflorar a insatisfação de seus seguidores.
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