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Memória de Peixe: Grand Theft Auto – a trilha sonora da minha vida

As estações de rádio de GTA ajudaram a formar o caráter (e gosto musical) de muitos que impersonaram seus protagonistas.

Muitas das minhas melhores memórias na frente do computador estão ligadas aos games. Os primeiros Need for Speed, o estratégico Commandos: Behind the Enemy Lines, emuladores para jogar Pokémon e Chrono Trigger, e, claro, Grand Theft Auto.

Partindo do início, os dois primeiros títulos da franquia não tinham uma trilha sonora lá muito memorável. Mas, quando o universo do ladrão de carros tomou de assalto os consoles da sexta geração, a coisa mudou de figura. GTA III ainda engatinhava nesse quesito, apresentando ao mundo toda a potência dos até então subestimados jogos em mundo aberto.

A liberdade dada pelos títulos da Rockstar não podiam deixar a desejar no assunto trilha sonora. Em sua surreal visão de mundo, as músicas eram bem desse planeta, e ajudaram a formar o caráter (e gosto musical) de muitos que impersonaram seus protagonistas.

Foi em Grand Theft Auto: Vice City que as coisas realmente começaram a ficar sérias. De pequenas bandas e alguns destaques, no título anterior, a franquia passou a trazer estações rádios robustas, com grandes artistas e músicas conhecidas do grande público.

Uma que ficou para sempre na minha cabeça foi aquela com uma das introduções de baixo mais conhecidas do metal: Peace Sells, dos gigantes do thrash Megadeth – que alguns anos depois viria a se tornar a banda da minha vida. Mas essa ficou longe de ser o único destaque na programação. Artistas como Michael Jackson, os heróis prog da Genesis, Bryan Adams, Phil Collins, Lionel Richie, os finíssimos Tears for Fears, Kool and the Gang, Toto, com a inconfundível “Africa”, Run-D.M.C. e, revisitando os clássicos mais pesados, Ozzy Osbourne, Iron, Judas Priest, Twisted Sister, com a clássica “I Wanna Rock”, Mötley Crue, Anthrax e os monstros do Slayer (para fechar o Big Four, só faltou o Metallica). Entre muitos outros.

Para ajudar a completar a lista, o jogo ainda contava com uma banda fictícia de glam rock, com o sugestivo nome de Love Fist. O grupo é importante para o próprio enredo do game, fazendo parte de algumas missões, com o protagonista Tommy Vercetti como capanga.

GTA San Andreas

Chegamos aquele que, para mim, levantou a barra de como uma trilha sonora não-original deveria ser construída. A começar pelos DJ’s (assim são conhecidos os radialistas nos Estados Unidos), que passaram a ser grandes nomes da música ou dubladores norte-americanos.

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Uma pequena road-trip pela zona rural de San Andreas.

Entre eles, Axl Rose, que no jogo é conhecido como Tommy “Nightmare” Smith, responsável pela estação K-DST, de rock clássico. Também estava entre eles Johnny “The Love Giant” Parkinson, que ganhou a voz do finado Ricky Harris – o Malvo, de Todo Mundo Odeia o Chris.

Mas, voltando para o nosso ponto de maior interesse, que são as bandas, algumas voltaram para o novo título, com novas músicas, como Toto e Kool and the Gang. Mas, entre as novatas, podemos destacar Foghat, com “Slow Ride”, Creedence, Kiss, Tom Petty, Lynyrd Skynyrd e o interminável solo de “Free Bird”, America e o cavalo sem nome, a classiquíssima “Eminence Front”, do Who, ainda David Bowie, Billy Idol e as moças do Heart, com a porrada hard “Barracuda”. Todos esses na rádio de Axl Rose.

Ainda assim, uma outra estação em especial ficou na minha mente, e tomou toda a parte emocional da minha nostalgia: K Rose, de clássicos da country music. Me lembro bem de pegar um carrinho rústico e cruzar toda a zona rural do estado de San Andreas, de Los Santos a Las Venturas, passando pela ponte de San Fierro, ao som daquelas canções gostosas sobre a vida campal e amores perdidos, ou abandonados.

Sempre me pego cantarolando “All My Ex’s Live in Texas”, de Whitey Shafer. Os acordes melancólicos de “The Letter That Johnny Walker Read”, do grupo Asleep at the Wheel, a vívida “One Step Forward”, da Desert Rose Band, ou o riff frenético de “Amos Moses”, do Jerry Reed. Me trazem boas sensações. Uma nostalgia no sentido mais puro da palavra, que realmente encravou aquela trilha sonora de forma profunda na minha memória. E essas não são nem metade das músicas dessa estação gostosa.

De volta à área que domino, a Radio X trouxe bandas que até hoje estão na minha playlist, que só fui conhecer por ali. É o caso de uma das minhas bandas favoritas, o Faith No More, que emprestou para a trilha de San Andreas o hino “Midlife Crisis”. Outros destaques de bandas que me estremecem as pernas são os heróis do grunge Alice In Chains, Soundgarden e Stone Temple Pilots. A clássica “Cult of Personality”, do Living Colour, também está lá, ao lado de Danzig, Rage Against the Machine, Depeche Mode, Ozzy Osbourne (de novo!), os pais do indie dos Stone Roses e o próprio Guns N’ Roses, do DJ Nightmare.

Grand Theft Auto IV

A volta de Grand Theft Auto a Liberty City foi criticada. Mas não pela história de Niko Bellic, que conseguiu manter um bom nível para a franquia, e sim pela trilha sonora. Contudo, ela também não foi má construída. O negócio é que, realmente, o que a produtora conseguiu com o design som em San Andreas deixou o público muito exigente.

GTA IV trouxe ótimas estações, comandadas por excelentes DJ’s, como Iggy Pop, Juliette Lewis e Daddy Yankee. No line-up do festival, as bandas Justice, Chet Baker, Duke Ellington, os indies do LCD Soundsystem e do Black Keys, Juliette and the Licks, na rádio da própria Juliette, o hardcore do Agnostic Front e os monstros do soul, Barry White e Marvin Gaye.

Também, o bom e velho classic rock da banda Heart, de volta com os falsetes estridentes de “Straight On”, David Bowie, AC/DC, R.E.M., a belíssima ex-Fleetwood Mac, Stevie Nicks, Queen, The Who, Smashing Pumpkins, Black Crowes com o som mais hippie dos anos 90, os irlandeses da Thin Lizzy, Black Sabbath, os Stooges, de Iggy, e os barbudos do blues rock ZZ Top. Ufa…

Senti falta por aqui dos gostosos clássicos da country music, mas temos que entender o contexto. O estado de Nova York não é lá o mais caipira dos Estados Unidos.

Grand Theft Auto V

Por fim, o game que até hoje rende um Rio Bravo de dinheiro para a Rockstar. Essa obra prima poderia render um outro texto todinho para descrevê-la, mas isso já se tem aos montes por aí. E sim, fiquei muito feliz com a volta da estação de country. Aqui, sai K Rose, entra Rebel Radio. Vai-se saber o que se deu com a primeira…

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GTA V tem mais estações de rádio que muitas capitais brasileiras.

A trilha sonora desse título é enorme, até porque há variações nas versões de consoles e PC, antiga e atual gerações, e também porque há muito mais estações. Então, por isso, não vou me estender. O texto ficou maior do que eu esperava e vou destacar aquilo que me saltou aos ouvidos.

Channel X trouxe clássicos do punk rock, e é a estação favorita do protagonista igualmente hardcore Trevor Philips. Entre bandas mais desconhecidas, estão os expoentes Black Flag e Suicidal Tendencies.

O rock foi bem mais segregado, com estações respeitando estilos diferentes, e dividido em classic, indie, rock moderno e, como citado, punk. A Los Santos Rock Radio, comandada por Kenny Loggins, trouxe bandas como Small Faces, responsável por “Ogden’s Nut Gone Flake”, música que apresentou o game em seu primeiro trailer, em 2011, Robert Plant, Def Leppard, Elton John e mais uma pá.

Como sabemos, muito da história do game se passa na periferia de Los Santos, com o protagonista Franklin Clinton. Para honrar esse pedaço da história, um time de peso foi escolhido para a estação de hip hop, com nomes como 2pac, Snoop Dogg, Dr. Dre e Ice Cube.

E bom, muitas outras rádios vão ficar de fora, como aquelas que se dedicam à músicas de elevador, funk music, com destaque para Stevie Wonder e a inusitada “Party All The Time”, do Eddie Murphy, música techno, pop, que traz “West End Girls”, dos Pet Shop Boys, música mexicana, para honrar essa grande comunidade da costa oestes, e reggae.

Toda a franquia Grand Theft Auto, inegavelmente, é um sucesso estrondoso. A Rockstar Games trata com muita atenção tudo que sai de seus estúdios. Nada vai para as prateleiras inacabado. A trilha sonora com certeza formou toda uma geração de fãs de rock. E, com toda a certeza, também colaborou na construção de outros gostos musicais.

Por algum motivo, os jogos que visitam a cidade de San Andreas têm as estações mais memoráveis e as músicas mais grudentas. Se já não fossem as histórias extremamente envolventes, GTA com certeza me ganharia pelos ouvidos. Como ganhou.

***

“Memória de peixe” é a coluna da Baleia que trata de temas do universo geek que mexem nas profundezas, dos mares mais escuros, da nostalgia.

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um comentário

  1. Não sou tão fã da série, provavelmente pq não tive toda a bagagem das sequencias, mas esse é e sempre foi um dos meus pontos favoritos de toda experiência que tenho com GTA.
    Conheci bandas de estilos que talvez nunca escutaria, lembrei de clássicos e também formei meu caráter musical através dos games.

    Curtido por 2 pessoas

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